Hoje eu me vi daqui a vinte anos.
Meus cabelos não estavam tão cinzas quanto eu imaginava que eles estariam, não havia tantos pés de galinha como eu esperava e meu sorriso ainda continuava largo e convidativo, feliz e de relações-públicas.
Eu estava dirigindo aquele Audi preto de quatro portas que eu sempre quis ter e minhas roupas revelavam minha provavelmente recheada conta bancária. Uma pasta de couro ao lado da cadeira onde eu estava sentado carregando um lap-top de última geração e várias outras pastas com diversos trabalhos.
Meu físico era razoavelmente o que esperaria aos meus quarenta. Sem barriga, ombros largos, braços não muito grossos, mas sem flacidez nos músculos. Eu chamava atenção, era vistoso e ainda trazia em meus olhos o brilho do cara que sempre fui: galanteador, namorador e um ótimo parceiro.
Eu me vi sentado em uma mesa de bar, apreciando um café no final da tarde. O tempo estava agradável, era quase um final de noite. Eu estava ali, rabiscando algumas folhas de papel, o telefone celular em cima da mesa como se eu esperasse uma ligação. E eu realmente esperava.
Havia passado a vida toda dedicado aos estudos. Minha profissão com certeza seria extremamente satisfatória com um salário mais agradável ainda. Ter feito duas faculdades ao mesmo tempo, no final das contas, não havia sido uma má idéia. Quantos finais de semana eu não perdi em função de pesquisas, relatórios e provas finais. Valeu a pena, com certeza. Eu tinha ali tudo o que eu sempre almejei: um grande trabalho, conforto financeiro e minhas regalias pessoais.
Quem eu esperava me ligar? Seria o meu grande amor me ligando para dizer que estava com saudades e não via a hora de me ver em casa? Ah, não. Investi tanto tempo em meu futuro que não tive presente. Deveria ter ido à festa do Edu, fiquei sabendo que tanta gente se deu bem lá. E eu poderia ter sido um deles.
Talvez não fosse naquela festa. Não, não.
E se eu tivesse ido ao churrasco da faculdade? Ou nas reuniões do trabalho? Sempre viviam me perguntando o porquê de não aparecer nos eventos e eu sempre vinha com a mesma conversa de “acordar cedo no dia seguinte”, “ter mil afazeres a cumprir”, entre outras desculpas que me tirariam da minha rotina perfeita a caminho do sucesso.
Seriam, então, meus amigos me ligando, convidando-me para algum happy-hour ou alguma festinha? Ah, não. Passei tanto tempo preocupado com meus prazos de relatórios, de dados, revisões e resultados que esqueci de ligar para a maioria deles em seus aniversários. Talvez fosse por isso que quase não recebi ligações no meu.
Poderia ser do trabalho, então. Não, não. O expediente acabara às dezoito, e já eram quase vinte horas.
Foi então ali que percebi. Eu não esperava uma ligação. Eu esperava qualquer ligação. Provavelmente esperaria uma ligação do passado, de modo que eu, ali, naquele instante, pudesse alerta-lo.
Alertá-lo de que nem tudo se resume em si mesmo, que por mais egoístas e orgulhosos que possamos ser, jamais viveremos sem companhia. Alertar que uma vida sem amor não é vida, é existência. Que de nada vale uma lista de conquistas se não puder dividi-las com alguém. Que de nada vale a felicidade se não foi uma felicidade compartilhada.
Eu esperava uma chance. Uma chance de recomeçar. Uma chance de ir à festa do Edu, de ir aos churrascos, fazer festas, aproveitar as pequenas coisas que minha juventude teve a me oferecer e desperdicei em função de um futuro que, agora diante dele, não era exatamente o que construí.
Hoje eu me vi daqui a vinte anos. E, graças a Deus, eu tenho vinte anos para mudar essa imagem.
Meus cabelos não estavam tão cinzas quanto eu imaginava que eles estariam, não havia tantos pés de galinha como eu esperava e meu sorriso ainda continuava largo e convidativo, feliz e de relações-públicas.
Eu estava dirigindo aquele Audi preto de quatro portas que eu sempre quis ter e minhas roupas revelavam minha provavelmente recheada conta bancária. Uma pasta de couro ao lado da cadeira onde eu estava sentado carregando um lap-top de última geração e várias outras pastas com diversos trabalhos.
Meu físico era razoavelmente o que esperaria aos meus quarenta. Sem barriga, ombros largos, braços não muito grossos, mas sem flacidez nos músculos. Eu chamava atenção, era vistoso e ainda trazia em meus olhos o brilho do cara que sempre fui: galanteador, namorador e um ótimo parceiro.
Eu me vi sentado em uma mesa de bar, apreciando um café no final da tarde. O tempo estava agradável, era quase um final de noite. Eu estava ali, rabiscando algumas folhas de papel, o telefone celular em cima da mesa como se eu esperasse uma ligação. E eu realmente esperava.
Havia passado a vida toda dedicado aos estudos. Minha profissão com certeza seria extremamente satisfatória com um salário mais agradável ainda. Ter feito duas faculdades ao mesmo tempo, no final das contas, não havia sido uma má idéia. Quantos finais de semana eu não perdi em função de pesquisas, relatórios e provas finais. Valeu a pena, com certeza. Eu tinha ali tudo o que eu sempre almejei: um grande trabalho, conforto financeiro e minhas regalias pessoais.
Quem eu esperava me ligar? Seria o meu grande amor me ligando para dizer que estava com saudades e não via a hora de me ver em casa? Ah, não. Investi tanto tempo em meu futuro que não tive presente. Deveria ter ido à festa do Edu, fiquei sabendo que tanta gente se deu bem lá. E eu poderia ter sido um deles.
Talvez não fosse naquela festa. Não, não.
E se eu tivesse ido ao churrasco da faculdade? Ou nas reuniões do trabalho? Sempre viviam me perguntando o porquê de não aparecer nos eventos e eu sempre vinha com a mesma conversa de “acordar cedo no dia seguinte”, “ter mil afazeres a cumprir”, entre outras desculpas que me tirariam da minha rotina perfeita a caminho do sucesso.
Seriam, então, meus amigos me ligando, convidando-me para algum happy-hour ou alguma festinha? Ah, não. Passei tanto tempo preocupado com meus prazos de relatórios, de dados, revisões e resultados que esqueci de ligar para a maioria deles em seus aniversários. Talvez fosse por isso que quase não recebi ligações no meu.
Poderia ser do trabalho, então. Não, não. O expediente acabara às dezoito, e já eram quase vinte horas.
Foi então ali que percebi. Eu não esperava uma ligação. Eu esperava qualquer ligação. Provavelmente esperaria uma ligação do passado, de modo que eu, ali, naquele instante, pudesse alerta-lo.
Alertá-lo de que nem tudo se resume em si mesmo, que por mais egoístas e orgulhosos que possamos ser, jamais viveremos sem companhia. Alertar que uma vida sem amor não é vida, é existência. Que de nada vale uma lista de conquistas se não puder dividi-las com alguém. Que de nada vale a felicidade se não foi uma felicidade compartilhada.
Eu esperava uma chance. Uma chance de recomeçar. Uma chance de ir à festa do Edu, de ir aos churrascos, fazer festas, aproveitar as pequenas coisas que minha juventude teve a me oferecer e desperdicei em função de um futuro que, agora diante dele, não era exatamente o que construí.
Hoje eu me vi daqui a vinte anos. E, graças a Deus, eu tenho vinte anos para mudar essa imagem.
3 comentários:
Ah mto da horaaaa!!!
Perfeito o momento em que li isso...
Parabéns!!
Bjos
Bom, me cansei de dizer da ligação de pensamento entre nós dois, né?
Acredita que eu acho que também vi esse "moço do futuro" e ele era VOCÊ!!!
No corredor do Pão de Açucar, olhei pra ele e vi você, era A SUA CARA!!
Fiquei até de te ligar no dia e nao liguei pra contar!!
Beijos!
Oi, Fábio.
Eu nunca deixo recado por aqui, mas já passei pelo seu blog algumas vezes.
Adorei esse texto. De vez enquando eu escrevo no meu blog algumas das minhas emoções , sentimentos, reflexões, mas não tenho o dom da escrita, a Graciema, a nossa professora, me traumatizou. Eu adorava escrever.
Comentários à parte, passei mesmo pra dizer que esse tipo de reflexão já aconteceu comigo. Muitas vezes avancei no tempo , outras, voltei e percebi tanta coisa que eu perdi, mas vivo o melhor momento hoje - recuperação do tempo, se é que é possível- sem importar o que aconteça amanhã.
Bom final de semana e feriado.
PS: Adoro Blog !
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