domingo, 29 de julho de 2007

Luna

Conversei com a lua dia desses. Ou melhor, noite dessas.
Estava chegando, solitário, murmurando mil motivos para tentar trazer um sorriso ao meu rosto e nenhum desses motivos conseguia seu feito. Olhei para o céu limpo, sem nuvens, repleto de estrelas. E a lua. Cheia, majestosa, um brilho tão forte e tão belo que até merecia o título de estrela. Estava extremamente frio. Ocasionalmente surgiam aquelas pequenas nuvens que cruzavam o céu velozmente ao sabor do vento, como se fugissem de algo. E, ali, em seu trono celestial, estava a lua.
Perguntei a ela o que ela achava da solidão. E, astutamente, ela me respondeu:
— Não existe ser mais só do que eu sou. Fico aqui todas as noites, brilhando incessantemente e sem ninguém para observar. A noite pertence aos poucos que dão valor às simples coisas, como meu brilho, por exemplo. O único som que ouço é de meu amigo vento, que sempre traz boas coisas consigo. O vento traz mudanças.
— Em meu céu, as únicas companheiras não são vivas. Às vezes me magôo, a solidão torna-se insuportável. Então eu minguo. Fico apagada, esquecida, muitas vezes nem se lembram que existo. O tempo passa, os ventos mudam e eu retomo minhas esperanças. Renasço.
— A solidão faz parte do que sou. Meu brilho é bonito, embora poucos possam admirá-lo. Por fim, não fico completamente triste em saber que passarei todas as minhas noites sozinha. Tenho uma recompensa que também é para poucos. Todas as manhãs, meu amigo Sol faz um espetáculo magnífico, só para mim. É isso que me dá forças de voltar a brilhar...
Admirei-a por mais alguns instantes. Ela pediu que eu não sofresse; que a solidão não é para os ruins nem é vista como punição. Pelo contrário, ela purifica. Todos os que são sozinhos terão sua recompensa, mais cedo ou mais tarde.
Deito-me, então, à espera de minha recompensa.

sábado, 28 de julho de 2007

Fragmento

Entre seus soluços de tristeza, suspirou fundo e disse:
— Não pedi pra nascer! Ninguém se perguntou se eu gostaria de viver.
E, então, alguém responde:
— E ninguém se perguntou se você ao menos merecia.
A vida é para poucos.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Aproveite o Dia

Não sei por que ao certo, mas me lembrei daquela expressãozinha “Carpe Diem”. Aproveite o dia. O que todos nos dizem é que devemos aproveitar cada segundo, não importa o passado e que o futuro venha. O que deve se viver é o presente.
Passei, então, a avaliar o presente. E descobri que o presente não existe. Existe um lapso de segundo entre algo passado e algo que ainda virá. Mas não existe presente. Agora, por exemplo. Olhe para sua janela e veja o que acontece lá fora. Pronto, já é passado. O fato de você olhar a janela ficou no passado, já é um fato que aconteceu e não acontecerá de modo igual nunca mais.
Jogue as mãos para cima, grite. Tudo isso já é passado e não presente. O gerúndio, então, é falho. Ninguém está andando. Ou já andou ou irá andar. Ninguém ‘anda’. Ou ‘andou’ ou ‘andará’. Como aproveitar o presente se o presente não existe?
Vivemos de transição. Transição do que somos para o que não somos. Transição de um lugar ‘x’ para um lugar ‘y’. Do não estar para o estar. Todas as suas lembranças pertencem ao passado. Assim, então, vejo que não existe o futuro. Só o passado. Vivemos sem ter o amanhã nem o hoje. Vivemos em função do passado e de futuros passados. Presentes que se tornarão passados em frações de milésimos de segundos. Já surge, então, outro passado. E outro, e outro.
Como buscar o aproveitamento completo, o “Carpe Diem” se o dia não existe?
Pisque duas vezes. Alguém morreu, alguém nasceu, alguém brigou. Todas as ações estão no passado. Todos seus planos futuros não pertencem mais a um futuro, mas sim a um breve e próximo pré-passado.
Vivemos, então, em função do que deixamos para trás. Não do que iremos fazer, porque tudo isso, uma hora ou outra, será passado. Agora mesmo, não é mais agora. Não existe o agora. Existe o ‘já foi’.
Este momento já está no passado. Eu já estou no passado. Então, para que caminhar a frente se já estamos atrás?
Começo, meio e fim?
Ou só meio?
Ou só fim?
Ou nada?

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Pingue Pongue

Engraçado.
O presidente da TAM, Marco Bologna, diz que a culpa não é deles. O airbus estava em perfeitas condições de uso. A Infraero diz que não foi culpa da pista. A culpa não é do avião, a culpa não foi da pista.
Culpa da Marta, que mandou relaxar e gozar...
Relaxa agora, Marta.
E, enquanto isso, mostramos nosso calor humano vaiando delegações de outros países no Pan.
E o presidente.
Ei, me fala uma coisa. Caos... somente aéreo?

Entre Quatro Paredes

Foi estranho. Sim, foi estranho.
Tive uma epifania hoje. Uma que não me levou a nenhum lugar nem trouxe sábios conhecimentos ou idéias. Férias realmente não são boas para aqueles que vivem sobre o comando de um relógio. E assim sou, um maníaco escravo pelos minutos. Necessito de prazos, horários e datas. Assim funciono e sou feliz em minha loucura. E quem não é louco? Não, não é essa a epifania.
Em meu mês de férias, tiro as madrugadas para escrever, além de, recentemente, ter descoberto um parceiro de boemia com quem dialogo até o amanhecer. Deitando-me tarde (ou cedo?!) acordo tarde. Alguns dias atrás, não me lembro ao certo quando foi, fiquei literalmente o dia inteiro dentro de meu quarto. Televisão, textos e a pilha de livros que me encara toda vez que me lembro dos títulos que devo ler antes de agosto. Mas Nelson Rodrigues vive me chamando e “A Vida Como Ela É” tomou a preferência. Deixe-me chegar logo ao ponto, odeio uma epifania longa.
Escrevo sobre o que vejo. O tal texto do cigarro tem seu quê de vida real. Não revelarei até onde vai a realidade e onde entra a criatividade, pois perderia sua magia — se é que já não se perdeu com essas poucas palavras. Pouco me importa. Não irei relê-lo mesmo. Voltando, escrevo sobre o que vejo. As inspirações não vêm de mim, vêm do mundo. Não estando no mundo, ficarei sem. E fico aqui, a pensar tais bobagens que não levam a lugar algum. Como falei, foi uma péssima epifania.
Foi estranho, mas foi intenso. E verdadeiro. Quantas pessoas vivem em seus quartos durante a vida toda e não se deixam sair. Quantos rostos mortos na multidão empobrecida pela tristeza da tristeza do outro — porque nunca estamos tristes por nós, mas pelo que os outros fizeram ou não por nós! — e nunca saíram de seus quartos. Quartos, salas, casas, teto. Proteções, muros, muralhas. Vidraças. Vidraças seria bom, pelo menos vê-se o que tem lá fora, mas jamais tocar esse mundo.
Foi estranho.
Amanhã sairei.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Cigarros

Ao passar pela locadora, avistei dentro do bar vizinho um rapaz sentado em uma mesa, um cigarro entre seus dedos, um copo meio cheio (ou meio vazio?) de água e um esboço de sorriso. A mão esquerda segurando o cigarro, alternadamente levando o veneno à boca e ao cinzeiro. Brotou-me a maldita idéia. O que faria ele ali? Por que fumava? Por que esboçava um sorriso, ou seria aquilo o fim de uma tristeza?
Entrei na locadora, devolvi meu filme e procurei em meus bolsos algum trocado. Decidi entrar no bar para comprar qualquer besteirinha, apenas para ter a chance de olhá-lo novamente. Era bonito, até. Cabelos negros, porte grande. Mãos impacientes dedilhando a borda da mesa como um pianista de mente bloqueada em busca da melodia perfeita. Achei uns quatro reais. Suficiente.
Parei diante da porta. Ele não estava mais sozinho. Outro rapaz sentou-se a mesa. O esboço se tornara um largo sorriso e o cigarro foi apagado. As mãos impacientes acalmaram-se ao toque do segundo sujeito, ao colocar sua mão por cima da do outro. Entreolharam-se. Torci para que se beijassem, o que não aconteceu. Fiquei parado ali, admirando a pequena cena de amor.
Em minha solidão, decidi comprar um maço de cigarros.
E eu não fumo. Nem vou fumá-los. Apenas decidi comprá-los.

Idéias

Odeio ter idéias. Para quem escreve, idéias são os passos iniciais de qualquer escrita. Não para mim. Gosto de me sentar e ter a história completa em minha cabeça e escrever como se alguém ditasse as palavras em meu ouvido. Odeio ter idéias. Elas me forçam a criar e não sou bom com criações. Sei relatar, sei dissertar. Criar não é meu forte. Quando desenvolvo minhas personagens, já as imagino inteiramente redondas, com todas suas mudanças possíveis durante a trama. Através das idéias, eu sou obrigado a tratá-las como seres humanos. Eu tenho que dar liberdade a elas para crescerem como desejarem.
Gosto de me sentir onipotente quando escrevo e nem sempre as coisas se desenrolam assim. Ao iniciar uma escrita, nem sempre sabemos os porquês da história nem onde irá terminar, muito menos como. O personagem principal pode se tornar um antagonista, ou até mesmo secundário. Esse controle sai de minhas mãos. E isso somente acontece quando se tem idéias.
As idéias são as chaves para a instabilidade mental.